Um Ousado Olhar para um Velho Mundo
Para uns, superficialmente, a vida não precisa de sentido algum, mas
para uma grande parte das pessoas a busca de propósito existencial, mesmo que
de forma aparentemente não sofrível, é um gesto mental presente
corriqueiramente e muitas vezes até involuntário. Pode-se pensar que é inerente
ao ser humano, ainda que algumas vezes negado por razões particulares. Conforme
veremos, e isso é um dado científico, é uma herança evolutiva sob a qual todos
nascemos. Todo ser humano vem ao mundo com alguma percepção de transcendência
ou sensação de algo maior que si mesmo, cuja pujança irá, no tempo do despertar
particular de cada um, alimentar uma busca de sentido filosófico à vida. Ou no
mínimo facilitar o entendimento teológico seguido de um engajamento em uma religião,
muitas vezes relacionada à tradição local ou familiar. Em outras palavras,
ajudar na compreensão da necessidade de se seguir a religião local o da
família.
Alguns negam veementemente tal herança evolutiva, mas seguem defendendo
o conhecimento científico como último refúgio para suas indagações e dúvidas,
embora, para outros, as respostas estão ainda fora do alcance da mais avançada
ciência contemporânea. Em suma, nascemos e crescemos desenvolvendo aprendizados
de diversas formas culturais e, independente do lugar nascido, sempre haverá
algo a ser aprendido, ainda que não relacionamos esse aprendizado a nenhum
sentido ou propósito existencial consciente.
Não obstante, o texto presente tem o objetivo insistente de aprofundar
mais e mais em aprendizados concretos diversos os quais estão aparentemente
desconexos. Entretanto, ao promover conexões
com melhor embasamento filosófico e científico mais atuais, podemos supor trazer um melhor
sentido para a vida. Reforçando que seja de uma forma que tenha, além das
referências metafísicas, tenha também um sentido prático, como um propósito
pelo conhecimento em si aplicado ao aprimoramento espiritual, tanto no âmbito
pessoal, quanto no social. A cultura grega arcaica já há milênios prega esse
aspecto do conhecimento como melhor caminho para nós humanos encontrarmos nossa
verdade. No entanto, novas perspectivas científicas devem hoje melhor apoiar
essa busca intelectual e moral em perspectivas relativamente mais acessíveis à
nossa diversidade cultural. E nesse sentido, em paralelo, vamos tentar mostrar
que há um objetivo primordial moral para todo o aprendizado adquirido na vida,
sem talvez estar relacionado à apenas uma cultura do planeta.
É necessário propor para isso, na medida do possível, que um objetivo
primordial moral para buscar aprender sobre tudo e todos é inerente à nossa
natureza humana física e psíquica. É um processo que há muito vêm sendo
elaborado pela evolução, porém devemos sistematizar de forma tal a nos permitir
sair de um aparente estado de passividade intelecto moral e iniciar um
posicionamento ativo em nossa própria evolução moral cósmica. Nossa
complexidade surgiu do cosmos, portanto é para o cosmos que devemos olhar com o
intelecto cada vez mais bem preparado. E, no tocante ao nosso objetivo, um preparo
intelecto moral, em vários sentidos possíveis, nos garantirá persistir como
civilização mais consciente de sua posição em um nível mais elevado na escala
evolutiva. É possível mostrar que, se houver um propósito melhor delimitado e
melhor praticado, poderemos ser o mais universal esperado para a evolução da
espécie homo sapiens, no verdadeiro sentido cósmico da palavra universal.
Vale cogitar que nossas mentes ainda necessitam tomar mais e mais
consciência deste papel importante que nossa existência se faz sentir diante do
Universo como um todo, ou diante do Cosmos, se preferir. Como seres que nos
percebemos bem vivos e existindo, nossa espécie está, a cada século, cada vez
mais sensível e consciente de seu papel no mundo. Em perspectivas temporais de
nossos antepassados, saltos de consciência dessa ordem requeriam milênios para
ocorrer. Assim sendo, conscientes de uma maior velocidade nas mudanças, nesse
momento cósmico de nossa evolução, não há mais como aceitarmos a ideia de que
surgimos com toda essa complexa forma de existência por forças do que chamamos
originárias do acaso. Tal ideia possui essencialmente uma interpretação
científica oficial ainda sobre um jogo de eventualidades. Ideia tão simplista
quanto simplória por definição. Precisamos saber ainda quem promove a
verdadeira evolução, o caos ou a ordem? Esta resposta não é tão trivial mas sua
busca pode levar à chave para melhor compreensão do papel de nossa consciência
no universo e esse contexto nos levará a um melhor sentido para nossas existências,
como veremos.
Veremos adiante que nosso cérebro tem dois hemisférios e essa divisão
nos favoreceu na evolução quanto aos questionamentos que elaboramos. E no
momento evolutivo que estamos, os questionamentos se tornaram tão complexos que
qualquer tentativa de resolvê-los por redução de complexidade (reducionismo)
nos força a recair em niilismos perversos para o processo civilizatório.
Definitivamente, e felizmente, para muitos de nós nesse mundo, não há mais
dúvidas de que somos uma experiência muito mais que biológica ou material de
existência. Essa fato é merecedor de atenção pois pode ser a garantia de não
extinção, pelo que vamos poder compreender mais adiante.
Esse aspecto de uma consciência transcendente assumida definitivamente
por todos os setores da ciência e da filosofia será a marca deste século XXI. E
é para esse ponto de mutação da realidade filosófica e científica que vamos
constituir uma hipótese, construindo, compilando e concatenando novos saberes
com velhas sabedorias. Mas cabe aqui desde já um alerta: essa transcendência é
fator de evolução e apenas nos serve para conduzir a uma posição moral melhor
no cosmos. Jamais será para a perversa interpretação antropocêntrica de nosso
papel no Universo. Ao contrário, nossa posição moral depõe sutilmentemente
contra nossa posição intelectual e é esse o ponto chave para a apreensão desse
modelo de pensamento. Essa percepção de uma transcendência nesse século XXI
deve servir a um chamado de humildade cósmica, como será disposto.
Ao longo das próximas décadas a ciência não conseguirá negar que a
explicação crucial da vida pode advir da compreensão induzida ou forçada da
transcendência humana. É neste tom que quero levar ao fim essa idéia de que
somos bem imaturos em se tratando da fração ínfima de tempo que estamos, a
espécie humana, habitando esse lugar a que damos o nome de Universo.
Partiremos do pressuposto de que somos ainda tão pequenos
cientificamente que não podemos vislumbrar ainda o lado espiritual da
existência sem ter que ver primeiro algo material como evidência. Nosso limite
de conhecimento científico da nossa própria consciência está sempre na margem
entre o conhecido e o desconhecido. Entre o evidente e o não evidente. Nada
obstante, no atual momento mundial, estamos na mais tenra idade cósmica para a
descoberta de conceitos que melhor descrevam a realidade tanto interior, quanto
exterior à psiquê humana. Nossa concepção de intelectualidade, incluindo a
moralidade humana, ainda não é considerada de uma tal maneira evidente e irrefutável
pela ciência como atributos transcendentes. E, como será exposto, é parte do
que a ciência hoje trata como o Problema Mente-Corpo.
Uma boa comparação com relação ao que pensamos normalmente sobre a mente
humana com relação ao corpo será possível entender daquela história de uma
pequena criança ouvindo um rádio de pilha. A criança ouve as palavras complexas
do rádio assim como a ciência coleciona informações mais complexas sobre os
atributos humanos. Ouve palavra por palavra mas não consegue apreender a
informação num todo. Entende um pouco de parte do que está sendo dito, mas não
sabe dizer como aquelas palavras ou atributos são produzidos ou como “entraram
naquela caixinha”. As informações complexas dão a ela, à criança, a ideia de
algo que vem de pessoas como ela, mas não compreende os significados com maior
conhecimento ou superioridade que poderia. No entanto, a complexidade das informações, pelo pouco
que a criança concebe, dão a ela a ideia de que há algo ali superior à sua
própria capacidade, porém não lhe comove ainda uma percepção lógica de que o
conteúdo de inteligência superior pode não vir apenas de uma pequena caixinha,
o rádio. Análogo a isso, a neurociência caminha ainda sobre o que a mente é
realmente uma manifestação de conexões físicas, embasados por uma física não
transcendente. Contudo, a abordagem intranscendente, tanto da criança, quanto
da ciência materialista, as mantém em uma condição desfavorável para perceber o
que realmente ocorre quando conteúdos mais elaborados surgem de algo bem mais
simples. Assim sendo, não se percebe ainda que os sinais e vozes provêm de uma
energia sutil, invisível e portanto ainda incompreensível e inevidenciável pelo
fato de não estar sob seu alcance simplesmente físico ou perceptível pelos
sentidos como prevê o atual método científico.
Contudo, nesta condição inicial da vida, a criança do exemplo justamente
se encontra percebendo o mundo através do tato, da visão, audição, etc. Para ela só há o mundo sensível pelo que lhe
tem disponível para sentir. Assim nos
encontramos em nosso nível científico de conhecimento sobre a realidade.
Somos ainda para a maioria apenas cinco sentidos e pouca percepção de um mundo
de muito mais possibilidades que o esperado pelo método. Somos crianças ouvindo
vozes inteligentes de uma caixinha ligada a nada, mas, como crianças, ainda não
sabemos que uma energia sutil (eletromagnética) é que faz a caixinha ser bem
mais transcendente que um simples objeto eletromecânico. A espiritualidade está
para a ciência como a energia eletromagnética está para a criança nesta
metáfora conceitual.
Assim pretendemos demonstrar que precisamos ainda entender que para nos
elegermos aptos a vislumbrar energias mais sutis, necessitamos elevar nosso
estado infantil para um estado mais
maduro. Proponho mostrar que esse estado imaturo está diretamente relacionado a
nossa posição moral numa perspectiva superior a que construímos como base
filosófica para nossa ciência. Estamos como crianças pré-escolares numa
provável escala de evolução cósmica, como proponho hipotetizar.
Nossas questões existenciais são parte do estágio infantil em que nos
encontramos ante a uma realidade maior. Nossas dúvidas são inerentes a essa
condição limitada. Essa é uma ideia espiritualista e já muitas vezes abordada
por nossos antepassados. Entretanto, gostaria de propor um olhar não só
filosófico bem como científico para essa perspectiva mais subjetiva da
realidade, em tese. Uma ideia que pode ser desenvolvida com o uso de metáforas
e hipóteses, mas foi sempre assim que novos paradigmas nasceram em toda a
história científica e ontológica do ser. Contudo podemos ver que fará bastante
sentido e, a partir de uma mudança de olhares, poderemos realmente demonstrar
um valor real e prático para essa ideia.
Reafirmando, no dia a dia de nossas vidas, enquanto crianças, pouco
ainda percebemos que o lugar em que vamos de tempos em tempos é o lugar onde
temos que estar para aprender algo mais do que aprenderíamos apenas em nossas
casas; ou um lugar que complementaria o que temos aprendido em nossos lares.
Mas em um determinado momento da maturidade, ainda que infantil, vamos perceber
que a escola é um lugar diferente de nosso lar, pois a disciplina, a rigidez e
as exigências vão se aprimorando de uma forma diferente que em nossas casas; vão
nos marcando de alguma forma o fato de que ali precisamos nos dedicar mais.
Assim também fazemos em uma escala cósmica quando nascemos em nosso planeta.
Mas ainda é uma informação difícil de assimilar, como veremos. Contudo,
continuaremos a esmiuçar essa comparação conceitual entre uma simples escola e
nosso ponto de vista planetário.
Em algum momento de nosso desenvolvimento, tanto na escola, quanto no
mundo, começamos a perceber que necessitamos nos esmerar para obter algum tipo
de reconhecimento ou progresso. Começamos então a perceber que estamos em um
lugar onde muitas vezes não queremos estar, pois lá exige-nos bem mais que
podemos ser ou fazer. Na escola, às vezes até mais do que estamos acostumados
em nossos lares, ainda que sob os cuidados de nossos pais ou outros tutores.
Mas no mundo, são muitos os que se vêem num vazio existencial por não terem
sido informado sobre um lar transcendente de origem. Às vezes até desistimos de
nos dedicar por não nos adaptar e passamos até a atrapalhar os outros que querem
seguir aprendendo. Ou muitas vezes somos perturbados por quem não deseja se
submeter a certas regras de conduta para o bom desempenho no aprendizado. Já é
possível perceber o potencial de comparação proposto. Nesse sentido, podemos
vislumbrar que por muito tempo esse comportamento humano persiste da mesma
maneira no Mundo Cativo e veremos que há outras analogias, como segue.
Alguns, no entanto, gozam de uma condição um pouco mais consciente de um
certo dever e se adaptam rápido, porém inconscientes ainda sobre a ideia de
escola, tanto aqui no mundo cativo, quanto na escolinha primária. Percebem logo
que é mais fácil não indagar e duvidar demais e concluem que melhor seria se
esforçar para cumprir aquela obrigação imposta pelos seus tutores e pelos limites
físicos do lugar que se encontram. Há uma espécie de aceitação como opção mais
barata. Neste grupo estão, no Mundo Cativo, os mais bem sucedidos no mundo
sócio econômico na esfera planetária. Os empreendedores de um dever de
melhorar, ainda que de forma materialista, influenciam o mundo de hoje nas
funções sócio econômicas. Esses são os que realmente agem mais e portanto
contemplam menos os aspectos transcendentes da existência. Não importa para
suas decisões o fato de termos uma espiritualidade cósmica ou não.
Cabe afirmar aqui que este é o ponto mais próximo do que somos hoje com
relação ao mundo e ao universo. Esses empreendedores, ou alunos mais
conscientes de seu dever que a média, nos colocaram nesse ponto de nossa
evolução filosófica, social e científica (tecnológica), mesmo sem muito dar
importância a um fator essencialmente transcendente como propomos aqui. Doaram
de sua moral o sentido de dever a cumprir oferecido e certamente está sendo
muito importante para todos na escola. Uma grande lição para toda a escola. Uma
grande conquista para a humanidade nesse Mundo Cativo.
Mas continuando, para esses alunos atuantes, em algum instante também
importante, os aspectos transcendentes passam a chamar a atenção. Assim como as
indagações sobre o que há lá fora da escola e sobre o que há de tão inteligente
“falando de uma caixinha” começam a intrigá-los mais e mais. Em algum momento
de sua maturidade sua mente começa a gerar curiosidades no sentido de despertar
ânimos diferentes e uma sensação de que há muito mais potenciais para se
aprender ou conhecer do que imaginavam. Se torna um ser ou um aluno mais
sensível a uma realidade maior e é assim que nos encontramos no mundo quando
buscamos entendimento através dos filósofos e pensadores. Na escola somos alunos
curiosos. No Mundo Cativo somos filósofos e cientistas.
Assim devemos hoje assumir nossa posição consciente no tempo cósmico
sobre nossa própria evolução no Universo. Não obstante, alguns dentre nós
percebem a importância real de sua condição ainda de aprendiz e, mesmo até sem
estar completamente satisfeito com sua condição, sabe o quão importante é estar
aprendendo tudo que lhe é mostrado para seu futuro fora do espaço cativo. Gozam
de uma condição mais consciente ainda do que o grupo empreendedor anterior e se
esforçam tanto para progredir, quanto para explicar como progredir melhor e de
forma mais criativa.
Portanto, nesse grupo de “crianças curiosas” primárias estão,
analogamente, os pensadores, artistas, cientistas, etc.. Os que contemplam mais
e agem um pouco menos para aquilo que acham simplório aos olhos do mundo
filosófico visionário porém agem substancialmente para contribuir com melhorias
substanciais na interpretação da realidade. São muitos que hoje estão nesse
grupo. Já são possivelmente massa crítica na sociedade mundial pronta para dar
um salto de qualidade ao mundo e consequentemente estar pronto para ampliar os
horizontes do Universo observável, assim é esperado.
Ao longo da leitura, devemos perceber que há muitas maneiras de
pressupor modelos para supor realidades. Não conheço melhor forma de fazer isso
que pela metáfora ou pela analogia. Ela nos possibilita que, a partir de um
modelo conhecido, nos levar a compreender melhor sobre um sistema ainda
desconhecido. Veremos que o acesso a esse modelo desconhecido só é possível
desta maneira, dado o fato que se trata de algo tão próximo de nós que se
confunde com nós mesmos. Essa proximidade turva a percepção, assim como turva a
visão os objetos próximos aos olhos. Estamos tão imersos num universo e
conectados tão intimamente com seus atributos que suas características físicas
ou mecânicas não estão tão claras para a ciência, por simplesmente
confundirem-se com as nossas próprias características. O acesso ainda só é
possível pela metáfora, pois ainda temos que desenvolver uma linguagem própria
para alcançar certos conhecimentos mais profundos da realidade.
Ao meu modo particular de ver o mundo, há uma ou mais formas de fazer
uma certa analogia entre a vida cotidiana na superfície física do planeta e uma
provável vida em âmbito cósmico não tão evidente. Porém, neste caso da escola,
pode haver uma semelhança conceitual aceitável, uma compatibilidade ou uma
forma de comparar aspectos bem consolidados socialmente em nossa esfera
perceptível. Contudo, sem dúvida entendo que é, para minha experiência de vida,
bastante pedagógico, no que pude começar a compreender questões existenciais
básicas milenares, mas ainda não respondidas a contento. Talvez seja apenas uma
experiência de loucura pessoal, mas não me satisfaz a ideia de não
compartilhar, ainda que correndo o risco de ser tachado, de várias maneiras,
não muito respeitável.
Embora essa ideia seja aparentemente simples, insisto relembrar sobre
esta compreensão inicial. Comparativamente, esse nosso mundo ou universo
observável seria então nossa escola primária, enquanto nela somos algo muito
mais que só um corpo ou matéria, ou seja, enquanto somos algo mais que só uma
criança ingênua em relação a suas possibilidades e potenciais maiores. Em
outras palavras, a condição infantil como a conhecemos é comparada a nós
adultos tal como nossa atual consciência cósmica pode ser comparada a
inteligências superiores, cujas conquistas morais e intelectuais foram obtidas
antes de nós na evolução do Universo, sobre o qual muito pouco conhecemos, vale
dizer. Ressalto assim que nenhum aspecto dos conceitos de escola primária vai
escapar de comparação através da devida contextualização com a modelo cósmico.
Essa experiência de migrar conceitos entre universos diferentes também será uma
marca do século XXI nos humanos melhor preparados moral e intelectualmente para
o futuro próximo, como veremos.
Continuando, numa abordagem espiritualista, a condição de criança
cósmica se resume a uma condição limitada de percepção de sua realidade
imaterial ou espiritual. Em outras palavras, o materialismo é comparado a uma
fase infantil da evolução cósmica. A experiência espiritual consciente não faz
parte do mundo infantil assim como o mundo lá fora da escola ou a compreensão
de energias mais sutis pouco importa para a maioria das crianças mais ingênuas
e infantis da escola. O desenvolvimento diário da escola primária é que abre a
percepção da criança sobre as diferenças entre o lar e a escola, bem como sobre
o fato de que a cada dia virá para um aprendizado novo e que exige do
aprendizado anterior somente a lembrança de o que foi aprendido e não de como e
de quando aprendeu. É plausível assumir que precisaremos de vários dias para
aprimorar a consciência infantil até percebermos que há um mundo lá fora e há
outras possibilidades em nossa física primordial ou em nosso Mundo Cativo
sensível.
Cabe lembrar que o tempo de um dia na escola, analogamente, é o tempo de
uma vida inteira no universo observável ou no Mundo Cativo. Assim, precisamos
de várias vivências para que comecemos a perceber que há outras possibilidades
de evolução nos âmbitos infinitos do Universo. Esse conceito já é bem difundido
e é o que chamam de reencarnação, fenômeno pouco conhecido ainda mas muito
falado, a origem palingenética do ser. O DNA cósmico que está numa camada
dimensional anterior ao DNA protéico. Veremos adiante que o que existe sensível
aos sentidos já existia em outros sentidos mais sutis. Não é também um conceito
ou atributo humano de simples aceitação, mas como será bem melhor explicado
adiante, faz parte da forma com que vamos aprender a lidar com o Amor em seu
âmbito cósmico. É uma tecnologia cósmica que se confundiu com religião e muito
se confunde como algo novo e portanto causador de medo. Mas não é. É muito mais
inerente a nossa Natureza que podemos imaginar.
Na escola que conhecemos aqui, o amor necessário provem, além de nós
alunos uns dos outros, vem muito mais dos seres que consideramos nossos
protetores e cuidadores. Em tese, da mesma forma pode ser visto no modelo
Universo. Um deus (ou deuses) supostamente amoroso jamais nos privaria de
oportunidades para voltar a tentar novamente um “dia” apos o outro, ou uma
época após a outra ou um vida após a outra. Mas é um conceito ainda muito
controverso pela perversa história religiosa em que a humanidade passa,
conforme vamos demonstrar. Perversidade essa supostamente por sermos ainda tão
infantis, instintivos, egocentristas e, portanto, dominacionistas. Pouco
conhecemos a função do ego e do eu, mas seu desenvolvimento em escala cósmica
passa também por fases conturbadas, como iremos verificar.
Devemos lembrar que não estamos na escola por meios próprios devido a
nossas limitações pueris. Alguém com poder maior (professores e tutores) nos
conduziu até onde necessitamos estar. Poder esse exercido para nos proteger e
nos ingressar no momento certo nos domínios escolares para que possamos estar
seguros, cativos e sendo educados e aprimorados da maneira mais eficaz
possível. Assim também se processa na comunidade cósmica. Somos impelidos a
nascer e morrer por forças que não questionamos a respeito por sermos ainda tão
inconscientes da realidade. Por sermos tão infantis, não questionamos as
atitudes de nossos professores e tutores. Simples assim. O que sabemos nos
serve pouco para questionar enquanto não adquirimos a maturidade necessária. A
moral necessária. Da mesma maneira, numa escala cósmica, não temos moral
suficiente para questionar as leis universais ou as regras da Natureza nem
aqueles que estão em um nível superior de realidade. Estamos presos ou
cativados nesta condição.
Também na existência cósmica, somos também alunos ou tutelados de
existências que de alguma forma superior a nossos alcances nos cuida para cumprirmos nossas fases de
progresso cósmico. Somos seres com necessidades, assim como na escola. Somos
seres normais, muitas vezes especiais, mas que necessitamos de coisas comuns
tais como alimentação, auxílio psíquico e físico de toda ordem, amor,
conhecimento, lições morais, proteção, identificação, etc..
Possuímos uma secular intuição de que há algo superior que nos
supervisiona de várias maneiras. A fé é um atributo inato e transcende toda
forma de descrição por meios físico-químicos. Essa percepção parcial da
realidade nos deu subsídios suficiente para seguirmos na carreira cósmica,
porém com uma certa limitação. Já fomos ao espaço periférico, mas a um custo
altíssimo comparado ao custo da vida simples. Entretanto, hoje somos
autorizados a testemunhar cada vez mais demonstrações de que somos mais que
medimos ser e os que vivem pela fé têm as mesmas necessidades de respostas que
os que vivem pela ciência: a necessidade de enfrentar medos.
O que mais nos infantiliza e nos mantém infantis na evolução é a
incapacidade de compreender a função do sofrimento. E essa infância que nos
involve sobre o aspecto da comunicação também nos prende apenas pelos sentidos
físicos e capacidades motoras, assim como uma criança nos primeiros anos de
vida. Por sermos infantis, não temos a linguagem pronta para compreender e se
fazer compreendido e nem a capacidade de ir longe caminhando no perigo das
incertezas. E na perspectiva cósmica, não aprendemos a traçar, por exemplo, um
diálogo útil com o a vida e tudo o que ela usa para nos ensinar. E nesse
contexto existencial, o sofrimento é de onde podemos mais tirar saberes
evolutivos. O medo, o maior de todos os sofrimentos, nos conduz à fuga do
sofrimento e não o enfrentando, enquanto que ele é quem induz a coragem e essa se molda em contradição ao medo e nos
dá abertura para um olhar melhor para nossa realidade. Esse é o processo
simples da evolução de todos seres vivos, tanto em nível terreno, quanto em
nível cósmico. O medo sendo ciclicamente vencido pela coragem num processo
iterativo constante.
Não obstante, a coragem provém do sujeito e portanto demanda vontade e
propósito. Mas sua potência é diretamente proporcional ao entendimento da
função pedagógica do objeto tido como superior ao sujeito e não do objeto em
si. O medo de algo superior a nós é o nosso maior sofrimento institucionalizado
e está espalhado por todo o mundo. Independe de cultura ou religião. A maior e
mais perversa força que nos mantém infantilizados ante às possibilidades
cósmicas é o medo do desconhecido, um
sofrimento sutil mas que nos mantém cegos e querendo ficar cegos, mesmo sabendo
que se abrir os olhos veremos a realidade maior. O medo de algo superior ao
nosso controle mínimo é fonte do reducionismo em que embrenhou a ciência. A
tornou uma atividade estreita pois só olha para os objetos por terem medo do
sujeito, no caso, o sujeito maior chamado Natureza ou Deus, como querem alguns setores
da sociedade antropomorfizar ou não esse sujeito.
Assim a ciência dos nossos dias nos servirá para compreender, corrigir
ou controlar algumas variáveis da Natureza, mas não haverá como avançar para
uma realidade maior se continuarmos apenas melhorando os nossos 5 sentidos
físicos ou nossa capacidade motora, negligenciando maiores percepções tão
subjetivas, quanto reais. Temos que melhorar nossas consciências, esse sim é
nossa única chave de acesso à uma realidade maior. Como mesmo disse Einstein, a
ciência sem a religião é paralítica, enquanto que a religião sem a ciência é
cega. Complementando então, só sairemos da infantilidade cósmica quando essas
duas vertentes se darem as mãos e seguirem numa jornada maior. A ideia de Mundo
Cativo sintetiza metaforicamente esse "dar as mãos". Essa conciliação
será o início de nosso processo de maturidade cósmica. É um passo de grande
coragem, mas que exigirá extrema humildade tanto da Ciência, quanto da
Religião, pois é tempo de traçar objetivos comuns e, muito além de confrontar o
medo do desconhecido, conhecer a origem primordial do medo e seu aspecto moral
no âmbito do Universo.
Não há analogia melhor para compreendermos e assumirmos uma realidade
cósmica, dado o fato que já sabemos que somos singulares sobre tudo o mais que
observamos no universo. Somos únicos no mundo animal e material, devido a
limites ainda necessários. Mas não somos únicos no mundo imaterial e nossos
limites são temporários e dependem necessariamente de nosso desenvolvimento
intelectual, bem como também, talvez mais importante, o moral. Embora veremos
adiante que moral e intelectual são só dois aspectos de uma mesma moeda.
A escola parece-nos ser só uma no universo tão somente porque não
assumimos que há escolas em outros lugares. Somente por isso. Não olhamos além
da cerca por que não nos interessa, para a maioria, saber por enquanto que
somos uma escola dentre várias. Acreditamos ser aqui a extensão de nossa casa
ou ela mesma, em nossa ingenuidade cósmica. Daí a importância de assumirmos essa
perspectiva de que habitamos um espaço cativo no universo e com um propósito
não percebido devido a nossa pequenina idade sobre a linha do tempo cósmico.
Hoje, muitas pessoas intuem um propósito mas não o verifica nas
ciências, pois nunca haverá evidência de algo que só se vê no universo
subjetivo, isto é, só se vê pela intuição de um mundo lá fora da escola. Só um
sujeito intui, portanto inalcançável por evidenciamento metodológico. Assim a
ciência moderna, em sua investigação objetiva e reducionista, jamais alcançará
a evidência de um propósito se não prever ou pressupor a possibilidade de o
propósito ser parte inseparável do Universo observável, que é nosso Mundo
Cativo. A ciência não vê propósitos superiores ao homem desde que eliminou dos
seus estudos o sujeito ou subjetividade, em detrimento de alcances maiores que
o que se capta dos “somente objetos” da Natureza. Essa é a objetividade
científica.
Podemos aqui perceber que já chegamos a um ponto na evolução em que já
podemos criar nosso modo de vida de forma a ser um micro modelo de um provável
mundo real cósmico. Sem estarmos conscientes disso, instituímos pequenas
instâncias do que já era Lei Universal. O modelo de escola infantil como um
lugar em que nos levam para aprendermos e aprimorarmos o que não faríamos em
casa é um modelo universal. Nós não criamos esse conceito de um dia para o
outro. Nós o percebemos como eficiente dentro de um processo de evolução social
cuja regra, sem percebermos, é tão somente uma aplicação de um conceito
natural. Somos fruto do meio físico mas também somos fruto do meio cósmico
imaterial. Nada que criamos aqui na terra é necessariamente fruto de conceitos
puramente terrenos. Somos essencialmente orientados por tutores ou seres que
evoluíram antes de nós. De outra forma, estaríamos na condição mais próxima dos
animais, lutando cegamente para mantermos a espécie em suas primeiras e
primárias necessidades, nada mais.
A evolução é uma regra não apenas da terra, mas de todo o universo. É
uma Lei Cósmica. Nesse contexto, podemos facilmente pressupor que há grandes
similaridades entre os seres cósmicos. Do contrário, não haveria sentido sermos
tão diferentes dentro do próprio reino animal, pois seriam os “outros” seres
cósmicos apenas outros animais, mais ou menos sofisticados. A humanidade que
existe em nós é atributo cósmico e não somente terreno. Daí nossa capacidade de
alçar nossas perspectivas rumo a uma ascensão cósmica possível e real.
O fato é que nos encontramos em maioria ainda em tão inicial crescimento
da consciência o qual podemos nos comparar a uma criança que está amadurecendo
e começando a ver a diferença entre escola e seu lar ou entre uma escola e
outra. Percebemos em vários instantes que não estamos em casa; estamos em outro
lugar que de várias formas são nos apresentados pessoas e coisas diferentes de
nossa casa. Essa sensação é parte do espírito de muitas pessoas já há alguns
séculos e cada vez mais nos dias de hoje percebem que vieram de algum outro
lugar ou está indo para algum outro lugar. São essas partes das indagações dos
últimos séculos que intrigam a alma humana, porém tem sua resposta melhor
compreendida quando olhamos para o universo com essa perspectiva de aluno ou
aprendiz.
Essa sensação de que há um lugar mais nosso, tipo um céu ou paraíso em
que iremos ou retornaremos, é parte da intuição da maioria dos habitantes deste
mundo. É parte da formação da ideia central das atuais religiões ou mitos da
terra. A filosofia no seu desdobrar para a ciência e a teologia são sintomas
naturais desta intuição que carregamos de que há um lugar fora daqui. Mas daqui
podemos perguntar: fora do quê? Estamos limitados ou presos em quê? Por que não
podemos ter essa informação desde nosso ponto de vista? Seria esse segredo
parte do processo de aprendizado cósmico?
Aqui está o ponto central da proposta da Hipótese de um Mundo Cativo:
demonstrar teoricamente que há um processo de evolução ocorrendo em nível
universal em que fazemos parte crucial como seres ativos, porém em necessária
contenção das vontades infantis, visto que já possuímos algumas faculdades que
precisam ser adaptadas a uma regra universal superior, para nos permitir, com
segurança, sair rumo à exploração do universo, como jovens partindo para a vida
com uma certa autonomia e preparo físico e moral maior que de uma criança, para
encarar com responsabilidade e melhor entendimento numa nova e mais ampla
jornada.
O que somos? De onde viemos? Para onde vamos? São antigas questões que
não avançaram muito em respostas concretas em contraste com tamanho avanço
tecnológico já conquistado. Porém, podemos afirmar com razoável certeza que
isso é um fato observável: somos já suficientemente evoluídos para elaborarmos
tais questões e, principalmente, somos conscientes o bastante também para saber
da importância destas respostas de alguma forma realista e concreta para a
continuidade existencial dentro de um contexto cósmico. É perturbador perceber
tal impotência filosófico-científica em detrimento do período de tempo, como
computamos, existindo neste universo, aparentemente sozinhos e ainda
conscientemente sensíveis a indagações tão constrangedoras. Em contraponto, é
fato que somos algo importante no cosmos e tecnologicamente já estamos
impactando em alguns espaços-tempos de uma forma sem precedentes. Mas como
alcançar tais respostas de uma maneira consistente, coerente, racional e sem
incorrer em ilações falaciosas, como já tem sido feito desde os mais antigos
registros históricos de nossa consciência cujo o despertar, por motivos também
desconhecidos, ocorreu em algum momento da evolução?
Essa resposta muito se busca através da filosofia, mas pouco ainda se
aplica no campo epistemológico das ciências aplicadas em nossos dias.
Entretanto, há um despertar favorável a algum tipo de vivência filosófica nos
dias atuais e, principalmente no mundo ocidental, parece que estamos nos
preparando melhor para uma nova realidade. Nos dias de hoje, estamos
sintetizando, através da divulgação filosófica, que uma resposta possível e de
sentido vital é a de que necessitamos de mais e mais sabedoria para de alguma
forma poder, no futuro, perceber algum sentido maior para a vida. Em outras
palavras, esclarecer os enigmas universais ainda misteriosos para humanidade é
possível desde que sejamos cada dia mais sábios ou conscientemente evoluídos
para algum objetivo ainda também misterioso. A essa perspectiva de se libertar
das grades, amarras ou limitações advindas da ignorância cósmica é que
traçaremos um ponto de partida de uma Hipótese de um Mundo Cativo. Um mundo em
que estamos de alguma forma contidos ou presos por nossa ignorância cósmica
coletiva. Lidar com o misterioso não é simples, portanto necessitamos de um
método para isso. Nada melhor que começar por uma hipótese.
É o que se pretende aqui como uma alternativa de visão de mundo: propor
um meio racional filosófico para pelo menos vislumbrarmos caminhos possíveis
para nos livrarmos destas indagações filosóficas através de respostas e não as
ignorando, tal como algum pragmatismo científico alienado tem feito. E para
isso temos que assumir, a priori, que somos hoje capazes de, com a adequada
correlação de ideias, conceitos, evidências, teorias e conjecturas já
existentes e inovadoras, entre diversas áreas de expressão humana, compor
hipóteses cujo o alcance possa vir a instigar uma maior participação popular
nestas questões filosóficas. E, quem sabe ao certo, num futuro, próximo ou não,
obter evidências convincentes para contribuir para a estabilidade e conforto
filosófico para várias das indagações humanas, mormente, as que separam a
ciência da religião. Seria mais uma alternativa para nos tornarmos
relativamente mais sábios diante de uma perspectiva universal. Quem sabe sermos
cocriadores de uma nova espécie a qual passaria de Homo Sapiens Sapiens para
Homo Sapiens Conscius?
Conforme veremos, analisando os desdobramentos das possíveis respostas a
essas questões, apesar de puramente filosóficas, poderemos inferir que não há
nada que impeça de tais desdobramentos serem partes fundamentais do pragmatismo
científico para uma humanidade futura mais participativa de um contexto amplo e
universal. Talvez essa seja a melhor estratégia para avançarmos muito mais no
conhecimento extenso do universo em todos os sentidos. Em outras palavras, se
pretendemos cientificamente conquistar algum domínio físico sobre a energia, o
tempo e o espaço no âmbito sideral, num futuro plausível, é temerário continuar
sem que saibamos sobre uma ética cósmica ou sobre o quanto somos e o quanto
podemos ser dentro de uma provável interferência mais profunda na natureza,
seja no universo microcósmico ou macrocósmico, isto é, seja no mundo subatômico
ou no mundo sideral; na matéria ou no cosmos.
Quando mencionamos esses dois campos que sabidamente atraem grandes
investimentos dos recursos científicos, não é por acaso. São esses atualmente
os dois dos três maiores campos de investigação científica pelos quais buscamos
descrever e compreender nossa existência. Devemos acrescentar o terceiro campo:
a consciência ou a mente.
A mente humana é ainda tão mal compreendida quanto o mundo subatômico e
tão mal observada quanto as profundezas cósmicas, apesar, ironicamente, da
pouca distância do objeto que consideramos cientificamente possível de
compreender. Somos enigmas de nós mesmos, pois ainda nem sequer sabemos se a
consciência é fruto da matéria ou se é outro tipo de manifestação da natureza
ainda não mensurável. Estamos há muito tempo com um olho no microscópio e outro
no telescópio, porém ainda estamos bem distantes de uma Verdade com V
(maiúsculo), como disseram os gregos (Platão) há mais de 2500 anos. Nossa
realidade é relativa e está longe de ser absoluta ainda que haja tamanha
pressão evolutiva à nossa espécie, em tese, superior. O que nos falta então?
Certamente, um pouco mais de compreensão.
Há um claro potencial humano para novas investiduras em níveis mais
elevados de compreensão. Porém, não devemos deixar que o pensamento metódico
materialista e duramente objetivo domine sozinho nosso porvir sem ser
constantemente questionado em suas bases e sem ser suplementado com outras
formas de expressão da consciência humana como a arte, a política e a religião.
A ciência tem papel crucial para a racionalização do método e da aplicação da
lógica, contudo não há apenas uma lógica - nada é único. Existem lacunas
visíveis na lógica da metodologia atual. Assim sendo, a ciência, pretendendo
ser uma ciência universal, não pode negar a lógica das outras expressões
possíveis da mente humana em busca de uma objetividade superficial. Veremos que
não há, dentro de nosso potencial criador, nada que escape a alguma
interferência subjetiva, nem mesmo no campo do método científico objetivo.
Portanto não há como ser puramente objetivo ante os fenômenos da natureza,
porquanto a própria natureza tem sua subjetividade, conforme demonstraremos.
Há uma forma de abordagem relativamente simples para compreender as
coisas: a busca do equilíbrio entre os conceitos. Como equacionar melhor as
relações de causa e efeito? Por exemplo, se o universo surgiu por nós e é
anterior a nós, não seria mais que justo e equilibrado sermos algo superior e
consciente por ele em um momento oportuno? Essa busca por um equilíbrio ou
ponto médio pode vir a ser o ponto em que a ciência se concilia definitivamente
com a teologia cósmica a qual subjetivamente nos orienta há milênios. E vale
ressaltar que ainda não se sabe se a subjetividade - consciência - é criação física ou puramente
cerebral. Pode ser mais que isso, pois o cérebro físico, que pensamos fruto da
evolução natural, assumimos, como pressuposto, ser uma estrutura posterior à
estrutura possivelmente menos inteligente que o criou: a natureza. Ou a
consciência, sendo muito mais complexa, já estava aqui antes da natureza? A
solução deste tipo de dilema entre a causa e efeito é um dos desdobramentos
possíveis para buscar respostas consistentes e equilibradas, como veremos.
Esse tipo de interpretação ainda falta muito aos ocidentais. O oriente
já vem exercitando essas filosofias há mais tempo. Sabemos que ambos os lados
do mundo possuem seus mitos, embora nós ocidentais apreendemos que coisas como
materialismo, capitalismo, socialismo, democracia, etc. são realidades, mas que
na verdade são convenções e portanto, mitos, até que se demonstre uma relação
direta com a natureza. Assim deveria se orientar o pensamento científico
coerente, universal e dinâmico.
Embora, em lados filosóficos diferentes, não há como se afirmar
categoricamente que somos frutos de um acaso surgido no universo e nem que
somos efeitos de uma causa superior. No entanto, somos todos obrigados a
aceitar que em algum momento no tempo e espaço surgimos no cosmos, seja por uma
causa ou por um acaso. Essa discussão é milenar e hoje a ciência tem muito mais
a dizer sobre a matéria, a mente e o cosmos do que em outras épocas. Assim como
a religião tem algo a dizer sobre o que lhe compete, por exemplo, sobre algum
tipo de hierarquia ou ordem universal inteligente. Todos evoluímos a um ponto
em que um diálogo aberto e desprendido de tradições e dogmas já é possível.
Embora o maior e mais profícuo e verdadeiro diálogo seria entre nós, seres
humanos errantes, e o universo, o portador ativo (e não passivo como concebemos
corriqueiramente) de todo o conhecimento. Tal diálogo ainda não há devido a
nossas limitações em dar o devido respeito com o que ou quem estamos
dialogando. Nosso ímpeto por controlar a natureza nos embriagou de empáfia cuja
pujança do materialismo científico exacerbado dos últimos séculos comprometeu
nossa sensibilidade para com as sutis manifestações essenciais que o cosmos
oferece. Isso de alguma forma nos comprometeu enquanto receptores do saber
universal e nos isolou numa condição limitada que está muito aquém do que
realmente podemos. Cada indivíduo, somos um universo em nós mesmos. Somos
diminutas instâncias do que queremos compreender. "Conhece a ti
mesmo" é uma máxima muito antes de ser pronunciada na face da terra. Há
milênios isso vem sendo dito em toda parte do mundo e pouco está sendo
efetivamente feito para correlacionar o que somos com o que o universo é.
Não é otimismo filosófico (Leibniz) acreditar que podemos já ter o
condão para traçar caminhos conciliadores racionais e concretos para a maioria
destas questões filosófico-científicas. O otimismo em si é um vício filosófico
impertinente neste vislumbre. Mas é crível que podemos responder a tais
questões sem necessitar criar mais vícios filosóficos inúteis quaisquer. Isso é
possível. Se as indagações filosóficas estão presentes na arena de nossas lutas
por conhecimento, elas certamente são partes integrantes do processo de
evolução da consciência. Não há como negar que as indagações são frutos de
nossas consciências as quais são frutos de uma infinidade de interações entre
energia, espaço e tempo os quais nos trouxeram até aqui. Ignorá-las por
completo seria o primeiro passo para a extinção de nossa espécie. Ao passo que
respondê-las seria o primeiro passo rumo a uma provável ascensão cósmica a qual
já podemos vislumbrar. Estamos em um ponto de inflexão intelecto-moral o qual
urge que tenhamos a iniciativa livre e conjunta de tomar as rédeas de nossa
própria evolução. Contudo, para isso, primeiro temos que nos ver melhor no
espelho de uma outra verdade universal e começar a tratar o assunto livre dos
“ismos” como materialismo, racionalismo, sectarismo, antropocentrismo,
cientificismo, dogmatismo, etc, etc.. Esses “ismos” são perniciosos. Um exemplo
claro disso, como demonstraremos, é que existem lacunas científicas que foram
preenchidas com otimismo e até os dias de hoje acreditamos serem respostas
coerentes de uma realidade consistente. Só que não.
Com este espírito aberto a novas percepções da realidade e focado em
vencer nossas limitações através da exposição sincera destas restrições moral e
filosófico-científicas, poderemos possivelmente dissolver as barreiras físicas
e filosóficas da natureza e promover à humanidade uma luz maior sobre uma
provável participação fora do Mundo Cativo o qual, embora sendo uma metáfora ou
mero recurso linguístico, pode vir efetivamente a ser coincidente com algo
concreto que esteja camuflado por nosso otimismo científico reducionista
exacerbado.
Portanto, por hipótese inicial, estamos cativos e vamos tentar
demonstrar que estamos muito aquém de nossas possibilidades humanas numa
perspectiva cósmica. Mas será proposto, também por hipótese, que há formas
alternativas de sermos mais responsáveis para seguirmos livres e construtivos
nas profundezas dos segredos que a natureza ainda nos esconde por alguma
motivação ou explicação ainda desconhecida.
Assim, veremos.
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