Mundo Escola, Mundo Prisão ou Mundo Cativo?
Quando criança, bem no início da vida, uma parte de nós humanos somos “colocados” numa escola primária, mas não nos observamos lá de forma totalmente consciente e percebendo que se trata de um lugar com sua estrutura toda dedicada ao propósito de educar. Nossa imaturidade mental não permite lucidez suficiente para tanto. Para quem ainda se lembra, quando ainda no começo da vida escolar, uma vez nos sentindo seguros ali, passamos a perceber o ambiente escolar como um lugar similar ao que poderia ser outra casa mas agora com pessoas diferentes e tarefas mais variadas. É um despertar lento e formador de nosso entendimento sobre o que está acontecendo a volta. É parte de nosso momento de despertar sobre uma realidade nova pela perspectiva infantil. Dependendo da idade de cada um, pensamos infantilmente ser ali uma simples continuidade de nosso lar ou o próprio lar em alguns momentos, devido à percepção ainda muito limitada pela circunstância. Ou, no máximo, iremos aceitar a ideia de um lugar onde ficamos por um tempo enquanto nossos pais estão em outro lugar.
Assim imaginando, acredito ser possível construir uma analogia séria e profunda entre essa singela estrutura chamada escola, a qual já concebemos, com o que hoje percebemos como o Universo que observamos. Esse é o ponto inicial da hipótese que, embora não pareça, é apenas um modo de convocar e especular uma diversidade grandiosa de temas os quais envolvem a existência humana. Isto é, apesar de parecer uma ingênua comparação, vai ser possível demonstrar relações, analogias e lógicas profundas através desse modelo escola. Creio possível ao menos especular uma espécie de metáfora em que neste lugar, no tempo e espaço cativado chamado escola é onde estamos neste momento no tempo-espaço inter estelar de nossa realidade. E para demonstrar isso deverá ser feito uso de muito do que sabemos, pensamos saber e pensamos ainda descobrir. É um texto o qual terá que ser posto de maneira a formar uma analogia ou comparação entre duas coisas que pensamos ser absolutamente diferentes. Confesso uma certa ousadia.
Contudo, essa comparação não é tão simples quanto parece e exigirá um profundo exercício científico e filosófico em nome da coerência racional e da resiliência religiosa. Para tanto, ouso tentar compor de forma clara e imaginativa essa analogia. Teremos que nos debruçar em questões não tão simples e infantis quanto sugere esse primeiro contato. Mas valerá a pena, pois é possível chegar a uma observação interessante sobre os pontos em comum entre a ciência e a religião sobre os quais está situado o homem com seus conhecimentos, conquistas, indagações e mistérios. Quero mostrar que é plausível encontrarmos padrões bastante similares entre uma escola, como um mundo cativo por função pedagógica e o que sabemos ser nosso lugar no Universo.
É admissível desenvolver com serenidade essa metáfora conceitual, porém de um modo que nos exigirá tanto conhecimento, quanto espiritualidade e, principalmente, neste aspecto subjetivo, a humildade sobre o que somos numa pressuposta realidade maior que a que podemos vislumbrar e contemplar atualmente pelos olhos da pura ciência materialista. Espera-se estimular algum tipo de religiosidade científica e bem mais próxima conceitualmente à nossa real natureza libertária e hiperconsciente. Uma possível analogia de padrões conceituais entre o que é a existência inteira de uma vida neste mundo cósmico em relação a um dia de aprendizado em um micro universo, criado por nós aqui na terra, a que chamamos escola, um provável ambiente cativo, mas que não poderia ser simplesmente comparado a uma prisão, como veremos.
Mundo Cativo é basicamente uma ínfima parte conhecida deste Universo infindável que a filosofia supõe sem fim e a ciência luta por descrever e nos trazer utilidades. Muitos cientistas tentam trazer das observações admissíveis informação o bastante para aumentar o que conhecemos sobre esse Universo, tanto microcósmico, quanto macrocósmico, mas há muito ainda a se conhecer. Há mais mistério que conhecimento sobre o que pensamos ser o Universo infinito. Essa parte possível de ser explorada e cada vez mais conhecida, ouso chamar aqui de apenas Mundo Cativo.
Albert Einstein, como cita a obra Como Vejo o Mundo (Ed. Nova Fronteira, 12ª edição, RJ, 214 pp., 1981), certa vez divagou sobre sua experiência filosófica religiosa e científica sobre esse lado misterioso do Universo, pois nesse momento de sua vida estava com seu pensamento voltado ao que percebia sobre ciência, religião e o que poderia ser o Universo com sua peculiar infinitude, realidade e mistério em seu tempo:
...“O mistério da vida me causa a mais forte emoção”...
...“É o mesmo sentimento que desperta a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação, ou se não pode mais experimentar assombro ou surpresa, já é um morto-vivo, e seus olhos se cegaram. A realidade secreta do mistério que constitui a religião é, também, aureolada de temor. Por isso os homens reconhecem algo de impenetrável às suas inteligências, mas eles conhecem as manifestações externas desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Os homens se confessam limitados, e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, sou profundamente religioso. (...) Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida.”...
...“Dou a isto o nome de religiosidade cósmica, e não posso falar dela com facilidade, já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde nenhum conceito antropomórfico de Deus. O homem experimenta o nada das aspirações e das vontades humanas, e descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão, e o ser deseja provar a totalidade da Existência como um todo perfeitamente inteligível.”...
Talvez seja exagero concordar diretamente com o uso do termo “prisão” e essa percepção de uma “confissão de limitado”. Entretanto, conforme preconiza Einstein, há algo que reconhecemos “de impenetrável às suas inteligências”. Contudo, se adotarmos um conceito intermediário entre escola e prisão, veremos que cativo, como proposto aqui, pode ser uma condição mais apropriada para nós humanos que sabemos limitados mas temos a pretensão de ser livres através de nossos esforços. Seria também mais otimista no sentido de que nem todo cativo está condenado permanentemente, nem toda escola é prisão, mas prisão pode sugerir eternidade e algum erro grave cometido. Contudo, acredito que há, de algum modo consciente, maneiras de aprofundarmos mais nos mistérios, pelos mistérios, assim reconhecidos por Einstein e o que precisamos para isso é de primeiramente assumir nossa condição iniciante, aprendiz ou até mesmo infantil diante de gigantescas possibilidades. Vindo dessa ideia de imaturidade cósmica que ouso propor essa analogia entre Mundo Cativo e o que já concebemos como escola.
É desejável propor mudar nossos pressupostos numa forma de exercício pleno de nosso direito humano cósmico de sermos os únicos provavelmente livres para imaginar. Parecer sermos aquilo que estamos procurando acumular como acervo de símbolos e relações lógicas (conhecimentos) humanos em que nos serve de referência, supor não apenas para nós, mas para qualquer ente ou lugar universal possível. Já somos capazes de nos percebermos. Somos aptos a nos vermos diante de algo maior, cuja a suposta existência, seja até de inteligências exteriores a nós, seria tida como provável. É até um paradoxo fundar uma ciência em pressupostos fechados sem que se conheça outros paradigmas. Somos mais que isso. Podemos mais que isso. Somos capazes de exercitar nossa peculiar eficácia imaginativa. O que somos hoje é fruto do que imaginamos ser. E já podemos também imaginar e idealizar o que moldaria o melhor de nós, lançando à frente um ser melhor, ocupante do nosso cativo lugar cósmico.
É desejável propor mudar nossos pressupostos numa forma de exercício pleno de nosso direito humano cósmico de sermos os únicos provavelmente livres para imaginar. Parecer sermos aquilo que estamos procurando acumular como acervo de símbolos e relações lógicas (conhecimentos) humanos em que nos serve de referência, supor não apenas para nós, mas para qualquer ente ou lugar universal possível. Já somos capazes de nos percebermos. Somos aptos a nos vermos diante de algo maior, cuja a suposta existência, seja até de inteligências exteriores a nós, seria tida como provável. É até um paradoxo fundar uma ciência em pressupostos fechados sem que se conheça outros paradigmas. Somos mais que isso. Podemos mais que isso. Somos capazes de exercitar nossa peculiar eficácia imaginativa. O que somos hoje é fruto do que imaginamos ser. E já podemos também imaginar e idealizar o que moldaria o melhor de nós, lançando à frente um ser melhor, ocupante do nosso cativo lugar cósmico.
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